Pela primeira vez na história do Brasil, representantes de povos indígenas e de comunidade quilombola passam a integrar uma turma do Instituto Rio Branco, escola responsável pela formação de diplomatas do país. A posse ocorreu em Brasília e marca uma mudança simbólica e institucional no Ministério das Relações Exteriores, tradicionalmente visto como um espaço pouco diverso.
Os indígenas Marcelo Kariri Menezes, do povo Kariri, e Idjahure Terena, do povo Terena, tomaram posse na quarta-feira (4), no Palácio Itamaraty. Eles agora farão o curso de Formação de Diplomatas, que começa em 2026 e vai até 2028. A turma reúne cerca de 60 aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata (CACD) e tem perfil mais diverso do que o padrão histórico da diplomacia brasileira.
O que aconteceu e por que isso é histórico
O ingresso dos dois novos alunos indígenas e de uma candidata quilombola na formação diplomática é apontado pelo governo como um marco inédito. Segundo o material divulgado, nunca antes representantes desses grupos haviam entrado no curso do Instituto Rio Branco.
Na cerimônia realizada nesta quinta-feira (5), a ministra interina das Relações Exteriores, Maria Laura da Rocha, afirmou que o corpo diplomático precisa refletir melhor a composição da sociedade brasileira. Na avaliação dela, a entrada de indígenas e quilombolas em uma instituição bicentenária ganha peso ainda maior em um contexto de defesa da democracia e dos direitos previstos na Constituição de 1988.
O ministro dos Povos Indígenas, Eloy Terena, também destacou o simbolismo da posse. Para ele, a presença indígena em espaços técnicos do Estado ajuda a influenciar decisões internas e externas do país e materializa a ideia de ampliar a participação desses povos na estrutura pública.
Convidado da solenidade, o escritor Ailton Krenak ressaltou o valor simbólico da presença das famílias e das crianças indígenas no ambiente formal do Itamaraty, em uma leitura de ruptura com a distância tradicional das instituições.
Como é a nova turma do Instituto Rio Branco
A turma que inicia a formação em 2026 tem cerca de 60 alunos. De acordo com os dados informados, quase metade das vagas foi ocupada por integrantes de grupos subrepresentados na diplomacia brasileira.
- 17 pessoas negras;
- 7 pessoas com deficiência;
- 1 pessoa quilombola;
- 2 pessoas indígenas.
Outro dado destacado foi a participação feminina: as mulheres correspondem a 45% da turma, a maior proporção já registrada, segundo o ministério.
O concurso que levou à seleção dos novos alunos contou com ações afirmativas. O texto menciona como base uma política prevista no Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, além de reivindicações antigas de movimentos de defesa dos direitos humanos.
A ministra interina também citou medidas adotadas pelo Itamaraty para ampliar a diversidade entre os futuros candidatos. Entre elas está a ampliação do Programa de Bolsa-Prêmio de Vocação para a Diplomacia, que passou a atender, além de pessoas negras, mulheres de baixa renda, indígenas e pessoas com deficiência.
Quem são os novos diplomatas indígenas
Marcelo Kariri Menezes é natural de Campina Grande, na Paraíba, e pertence ao povo Kariri. Ele é graduado em Engenharia Elétrica pela Universidade Federal de Campina Grande e tem MBA em Digital Business pela USP/Esalq. Entre 2021 e 2025, trabalhou como engenheiro de suporte a produtos. Também é autor de livro infantojuvenil.
Na cerimônia, Marcelo relatou que sua trajetória foi marcada por barreiras sociais e preconceitos sobre quem pode ou não acessar a educação. Ao lembrar a atuação da mãe, destacou a escola como caminho de transformação de vida.
Já Idjahure Achkar Terena é doutorando em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo, mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e bacharel e licenciado em Ciências Sociais pela PUC-Rio. Ao comentar a posse, ele relacionou o ingresso no Itamaraty à superação de uma longa história de exclusão e tutela sobre os povos indígenas.
Idjahure é filho do artista Macsuara Kadiwéu, apontado no material como o primeiro ator indígena do cinema brasileiro.
O que isso muda na prática para o serviço público
A principal mudança imediata é institucional: a diplomacia brasileira passa a incluir, na formação de novos quadros, pessoas de grupos que historicamente tiveram pouca ou nenhuma presença nesse espaço. Isso não altera apenas o perfil da turma atual, mas pode influenciar a formulação da posição brasileira no exterior, tema destacado pela própria cúpula do Itamaraty.
Na prática, a notícia também chama atenção para o papel das políticas de inclusão no acesso a carreiras públicas de alta concorrência. O caso do Instituto Rio Branco mostra que ações afirmativas e programas de apoio podem ampliar a presença de grupos subrepresentados em seleções nacionais.
Para o leitor que pensa em seguir carreira pública, especialmente em áreas como a diplomacia, o ponto central é acompanhar os canais oficiais para verificar:
- quando o edital do CACD é publicado;
- quais são as regras de inscrição e etapas do concurso;
- se há políticas de ações afirmativas e critérios específicos;
- como funcionam programas de apoio e bolsas voltados à preparação.
Essas informações costumam ser divulgadas pelos canais oficiais do governo federal e do próprio Ministério das Relações Exteriores. Como regras podem mudar de um edital para outro, o ideal é sempre conferir a versão mais recente publicada oficialmente.
Por que o tema da representatividade aparece no debate
Os números citados no material ajudam a entender o contexto. Em uma população de 203 milhões de pessoas, o Brasil tem 1,2 milhão de indígenas, distribuídos em 391 etnias e falantes de 295 línguas distintas, além de 114 grupos isolados ou de recente contato. Já a população negra soma 92,1 milhões de pessoas, sendo 45,3% pardos, segundo dados do IBGE de 2022.
Esse cenário ajuda a explicar a cobrança para que instituições públicas estratégicas tenham composição mais próxima da diversidade brasileira. No caso do Itamaraty, a discussão é ainda mais sensível porque a diplomacia representa o país no exterior e participa da construção da imagem do Brasil no mundo.
Ao destacar os primeiros ingressos indígenas e quilombola, o governo associa a mudança a um processo mais amplo de abertura institucional. Ainda assim, para medir resultados de longo prazo, será necessário acompanhar as próximas turmas, futuros editais e a permanência dessas políticas nos anos seguintes.
Perguntas frequentes
Os novos empossados já são diplomatas em exercício?
Eles tomaram posse para ingressar no curso de Formação de Diplomatas do Instituto Rio Branco. Antes de atuar na carreira, passarão pela formação prevista para o período de 2026 a 2028.
Quantas pessoas fazem parte da turma de 2026?
Segundo as informações divulgadas, a turma tem cerca de 60 alunos aprovados no Concurso de Admissão à Carreira de Diplomata.
Há reserva de espaço para grupos subrepresentados?
O material informa que o concurso contou com ações afirmativas ligadas a políticas já previstas em lei e a reivindicações históricas de movimentos de direitos humanos. Para detalhes atualizados, o leitor deve acompanhar os editais e canais oficiais.
Onde acompanhar informações sobre o concurso do Itamaraty?
O caminho mais seguro é consultar os canais oficiais do governo e do Ministério das Relações Exteriores. Em concursos públicos, regras, cronogramas e requisitos valem conforme o edital vigente.



